terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

Pinhão Manso: Verdades e Mentiras

http://www.portaldoagronegocio.com.br/index.php?p=texto&idT=896


Nos últimos tempos, anda-se falando muito sobre o potencial produtivo do pinhão manso, principalmente depois que a planta foi apontada pelo Programa de Biodiesel Brasileiro como uma das fontes de alta produtividade do combustível.

Alguns pesquisadores da Embrapa junto com pesquisadores da EPAMIG, preocupados com o que está sendo publicado pela mídia sobre o pinhão manso, reuniram-se e publicaram um documento alertando a respeito das verdades e mentiras sobre a oleoginosa. Confira na íntegra o que diz esse documento.

Alerta sobre o plantio de Pinhão manso

De onde surgiu a planta?

O pinhão manso (Jatropha curcas) é uma planta arbustiva da família das Euforbiáceas possivelmente originária da América, que ocorre de forma espontânea em diversos estados do Brasil. No passado, o pinhão manso já foi cultivado em pequena escala em alguns países, inclusive no Brasil, mas atualmente é uma cultura de pequena expressão mundial. É encontrado vegetando de forma espontânea, mas também em cercas-vivas ou próximo a residências, onde tem valor folclórico ou aplicações medicinais.

Com o advento do Programa Brasileiro de Biodiesel, o pinhão manso foi incluído como uma alternativa para fornecimento de matéria-prima. Esta escolha baseia-se na expectativa de que essa planta possua alta produtividade de óleo, tenha baixo custo de produção por ser perene e seja extremamente resistente ao estresse hídrico, o que seria uma vantagem significativa principalmente na região semi-árida do país.


No entanto, causa grande apreensão aos técnicos envolvidos com a pesquisa agrícola no Brasil, o incentivo ao plantio do pinhão manso em extensas áreas, pois é uma cultura sobre a qual o conhecimento técnico é extremamente limitado. Grande parte das informações divulgadas sobre a cultura provém de fontes pouco confiáveis, principalmente da Internet, em páginas de empresas privadas, onde as vantagens da planta são exaltadas. A seguir, citam-se alguns tópicos que merecem atenção sobre a cultura:

Em diversos países da América, África e Ásia há programas oficiais ou iniciativas particulares incentivando o plantio de pinhão manso para produção de óleo, sempre visando os biocombustíveis, mas em nenhum deles o pinhão manso é uma cultura tradicional, nem existem lavouras bem estabelecidas (com pelo menos 5 anos) onde se possa confirmar sua produtividade e rentabilidade de forma confiável;

Seja no Brasil ou em outros países, não foram encontrados relatos de experimentos com validade científica de longa duração que informem sobre a produtividade do pinhão manso em condições de campo; há somente estimativas feitas sem metodologia adequada ou por métodos questionáveis*, tais como extrapolar a produção de uma planta isolada para produtividade numa lavoura comercial; a maior parte dos trabalhos científicos sobre pinhão manso são estudos de laboratório ou casa-de-vegetação sobre temas específicos, tais como fisiologia, toxicidade de suas partes, produção de mudas, tecnologia de sementes, transesterificação do óleo etc;

O pinhão manso ainda não foi totalmente domesticado e não existe nenhum programa de melhoramento genético bem estabelecido no mundo que tenha resultado em, ao menos, uma cultivar que pudesse ser cultivada com maior segurança;

A cultura não possui um sistema de produção minimamente avaliado a campo, para que se possa recomendar a forma de propagação (sementes, estacas, mudas), a população de plantio, adubação, como e quando podar, como e quando fazer a colheita etc;

Em observações preliminares que estão sendo feitas em lavouras cultivadas em diversas regiões do Brasil, nota-se que a planta é muito atacada por doenças (virose, oídio nas folhas, caules e flores, fusariose, podridão do sistema radicular e outras) e pragas (cigarrinha, ácaro branco, trips, broca do tronco, percevejo, cupim e outras);

A maturação dos frutos é muito desuniforme, o que obriga os produtores a realizar inúmeras passagens na lavoura durante a fase de produção, o que pode aumentar significativamente os custos de produção;

No Brasil, não há mercado estabelecido para pinhão manso; a indústria de extração tradicional possivelmente não se disporá a processar pequena quantidade dessa semente, pois necessitaria ajustar suas máquinas; há o risco de haver um ou poucos compradores para o produto, o que pode levar à prática de preços muito baixos, o que se agrava por se tratar de uma cultura perene, na qual o produtor não tem a opção de, no ano seguinte, migrar para uma cultura mais rentável, vendo-se forçado a aceitar o preço que a indústria oferecer; mesmo considerando a grande demanda para o biodiesel, essa fragilidade do produtor não muda, pois ele dificilmente terá opções de venda além da indústria de extração mais próxima

não há no Brasil áreas contínuas de produção de pinhão manso para que seja feita avaliação da viabilidade econômica deste cultivo até a estabilização da produção, e mesmo as estimativas iniciais feitas por consultores têm indicado que a renda bruta por hectare é muito baixa para ser opção de renda.

As instituições bancárias ainda não estão preparadas para financiar o plantio de pinhão manso, pois não há garantia técnica para os produtores.

Diante deste cenário, conclui-se que no Brasil ainda não há tecnologia validada suficientemente para que se possa plantar pinhão manso de forma racional, e por isso recomenda-se aos produtores rurais que não cultivem grandes áreas, pois o risco de insucesso é alto.

Reafirma-se a crença no alto potencial produtivo e consideráveis vantagens que o pinhão manso possui, e a esperança de que essa oleaginosa, no futuro, tenha importante participação no fornecimento de óleo para biodiesel. Neste sentido, diversas Unidades Descentralizadas da Embrapa, instituições de pesquisa e universidades do país, contando também com parceria com outros países, já estão trabalhando no desenvolvimento de tecnologia para o pinhão manso, incluindo a criação

de bancos de germoplasma, experimentos a campo, estudos em casa-de-vegetação e em laboratório. No entanto, por se tratar de uma planta perene, que só estabelece a produção após o quarto ano, estima-se que serão necessários pelo menos cinco anos para que se tenham informações mais seguras sobre a cultura.

Enfatiza-se ainda a necessidade de reforçar os investimentos em pesquisa para essa cultura, e sua manutenção por longo prazo, para que as
atividades possam chegar a resultados definitivos, pois a interrupção desse apoio financeiro durante a execução do trabalho pode inviabilizar
todo o processo.


Liv Soares Severino - Embrapa Algodão
Napoleão Esberard de Macêdo Beltrão - Embrapa Algodão
Nilton Junqueira - Embrapa Cerrados
Marcelo Fidelis - Embrapa Cerrados
João Flávio Veloso - Embrapa Milho e Sorgo
Nívio Poubel Gonçalves - EPAMIG
Heloisa Matana Saturnino - EPAMIG
Renato Roscoe - Embrapa Agropecuária Oeste
Décio Gazzoni - Embrapa Soja
Jason de Oliveira Duarte - Embrapa Milho e Sorgo
Marcos Drummond – Embrapa Semi-árido

Fonte: portal do Agronegocio

Materias relacionadas:
Biodiesel do Óleo de Pinhão-manso

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