segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

Peru quer biocombustíveis, mas faltam terras cultiváveis

O Governo peruano quer estimular a produção de biocombustíveis como alternativa ao petróleo e à gasolina e, para isso, conta com uma enorme riqueza natural, mas não tem campos de cultivo suficientes.

O Peru tem 50 espécies de oleaginosas em seu território florestal que podem ser utilizadas para a produção de biodiesel, enquanto a desértica costa peruana pode produzir cana-de-açúcar - matéria-prima do etanol - praticamente durante todo o ano.

No entanto, os especialistas perguntam de onde sairão os 200 mil hectares que o Executivo incentiva a cultivar com canola, matéria-prima do biodiesel, ou os cerca de 100 mil hectares necessários para atender a demanda nacional de etanol.

O gerente-geral da Associação Peruana de Produtores de Açúcar e Biocombustíveis, Freddy Flores, considera que o desenvolvimento de uma indústria de etanol requer terras que tenham aptidão para o cultivo de cana e de variedades melhoradas dessa matéria-prima.

Flores mencionou que empresas estrangeiras, como a americana Maple, que tem 10 mil hectares em Piura, iriam para o norte peruano para cultivar cana em terras desérticas e, portanto, esse projeto levará vários anos para dar frutos.

O diretor da Usina Piloto de Produção de Biodiesel da Universidade Nacional Agrária La Molina, José Calle, alertou que "é preciso ter cuidado para que a produção do biodiesel não concorra com as áreas agrícolas" destinadas ao cultivo de alimentos.

"Não compartilhamos muito do entusiasmo do Governo de produzir 200 mil hectares de canola em cinco anos", afirmou Calle.

O também decano da Faculdade de Engenharia Agrícola dessa universidade acredita que a idéia do presidente peruano, Alan García, não é ruim, mas "o problema é de onde tirar tanto espaço e tanta água".

O ministro das Minas e Energia peruano, Juan Valdívia, disse esta semana que o Governo está à espera de uma legislação que determine as prováveis mudanças na porcentagem de mistura dos biocombustíveis, para "definir as áreas de cultivo" que serão necessárias.

Valdívia esclareceu que a produção de etanol será destinada à exportação porque, no Peru, o diesel é usado em maior quantidade.

No caso do biodiesel, é necessário cultivar oleaginosas que crescem em terras planas que estão ocupadas na serra, com maior acesso à irrigação de chuvas e rios, ao plantio de produtos de consumo humano.

Calle reconhece que o etanol é mais eficiente do que o biodiesel em rendimento por hectare cultivado, mas ressaltou que o segundo pode ser produzido em menor escala e de forma mais rústica.

O especialista disse que o biodiesel pode ser produzido com restos de óleo das cozinhas de qualquer lar e também nas longínquas comunidades da selva peruana que têm acesso a espécies nativas que podem ser usadas na produção desse combustível.

Diante da crise energética mundial pelo alto preço do petróleo e do agravamento da poluição atmosférica, a atenção dos especialistas e dos Governos voltou-se para a natureza em busca de um substituto para os combustíveis fósseis.

No Peru, a Lei de promoção do Mercado de Biocombustíveis foi promulgada em 2005, mas não incluiu os incentivos tributários que a empresa privada reivindica para sua produção industrial, segundo Flores.

A legislação especificou que a gasolina deve conter 7,8% de etanol, enquanto o diesel e o petróleo vendidos no Peru deverão conter 5% de biodiesel.

O parque automotor peruano, em sua maioria de 10 anos de idade, demandou 305 milhões de galões de gasolina em 2005 e precisaria de 24 milhões de galões de etanol por ano.

O desafio peruano é ampliar a fronteira agrícola sem ameaçar a frágil floresta amazônica, que ocupa mais da metade do território do país, e sem fazer o cultivo de alimentos diminuir.

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Um comentário:

João do Nascimento disse...

Muito bacana este material amigo, estou desenvolvendo um projeto para o Mercosul, e será útil para a conclusão do mesmo.

João