quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Conferência debate se produção de biocombustíveis pode encarecer alimentos

Por Luana Lourenço, da Agência Brasil

Rio de Janeiro - A sustentabilidade dos biocombustíveis foi o centro do debate sobre o tema nesta quinta-feira (20) na Conferência Internacional Rio + 15, promovida por uma empresa do mercado de carbono. Especialistas e empresários do setor discutiram se o avanço da produção de biocombustíveis pode elevar o custo dos alimentos, por causa da competição pelo uso da terra.

De acordo com o empresário Sérgio Flores, da Infinity Bio-Energy, dados da Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostram que a União Européia vai aumentar em 6% os preços dos alimentos em virtude da expansão da produção destinada aos biocombustíveis.

"Se os uso da terra não for responsável, e a produção de biocombustíveis receber subsídios, isso necessariamente vai elevar o preços dos alimentos", afirmou.

Em entrevista à Agência Brasil, o representante da OCDE, Brice Lalonde, defendeu “cuidado”. “O sucesso que você tem no Brasil não pode ser repetido em qualquer lugar”, disse. “Nos Estados Unidos e na Europa, a natureza não é generosa como no Brasil. Segundo, no Brasil, isso parece competitivo, não há briga pelo uso da terra com a produção de comida. Em outros países há essa competição, você tira terra da plantação de alimentos para produção de biocombustíveis e o preço da comida aumenta, e isso conta com altos subsídios.”

Na avaliação do diretor da organização não-governamental (ONG) Amigos da Terra, Roberto Smeraldi, a discussão sobre os biocombustíveis está "cada vez mais ideológica" e o debate mundial deve caminhar para a busca de soluções "neutras", que não signifiquem o fim da produção dos biocombustíveis nem o crescimento exagerado da exploração da terra para esse fim.

Por sua vez, o representante da Brasil Ecodiesel, empresa responsável por 52% da produção brasileira de biodiesel, Jório Dauster, afirmou que o uso da terra para produção de biocombustíveis "não tem a ver com a questão dos pobres".

"Se deixássemos de produzir biocombustíveis, isso não mudaria a vida deles em nada. Não é uma questão de falta de oferta de comida, por exemplo, é falta de recursos para comprá-la. A discussão não é moral ou ética, é uma lógica do mercado, uma questão econômica".

Dauster, que já presidiu a Companhia Vale do Rio Doce, disse que apóia o programa de biocombustíveis brasileiro, mas quer que o governo estabeleça percentual obrigatório de mistura de biocombustíveis ao diesel, por exemplo, medida que beneficiaria empresas como a sua.

O representante da Petrobras, Mozart de Queiroz, afirmou que a estatal, responsável pelo programa de biocombustíveis brasileiro, reconhece que a superfície da terra é limitada e que "não se pode deixar de alimentar as pessoas para alimentar os carros", mas afirmou que é possível produzir de forma sustentável.

O debate sobre biocombustíveis encerrou a Conferência Rio + 15, evento promovido pela EcoSecurities, empresa que atua no mercado de carbono, para discutir questões do futuro das emissões dos gases considerados causadores do efeito estufa. Anunciado como uma retomada das discussões da Rio-92 (ou Eco-92), o evento não priorizou as questões ambientais, como a conferência 15 anos atrás, e sim discussões com teor econômico.


Presidente da CUT defende regulação para a produção de biodiesel

O presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Arthur Henrique, defendeu hoje (20) a criação de uma câmara setorial para "discutir a regulação da produção do biodiesel e de outros componentes da biomassa, além do etanol".

Ele lembrou que a central criou um grupo de trabalho no Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES) para discutir essas questões. E disse ser "necessário o estabelecimento de uma espécie de acordo coletivo nacional para tratar do assunto, com a participação do governo, de patrões e de empregados".

A produção de etanol, acrescentou, "é um setor que subsiste em condições de segurança muito ruins e onde há alta intensidade de trabalho informal, além de alto índice de mortes no trabalho do corte de cana-de-açúcar". Ele disse temer que o mesmo venha a acontecer em relação ao processamento dos biocombustíveis.

"Está na hora de se resolver a questão trabalhista e da segurança, e de nos prevenirmos com relação à expansão de lavouras destinadas aos biocombustíveis também", afirmou.

Na CUT, segundo o sindicalista, não há preocupação "quanto a uma eventual concorrência entre a produção de biomassa e de alimentos, pois o que falta no país é renda". O marco regulatório, defendeu, deve incluir normas para as relações de trabalho e de segurança, além do zoneamento agrícola e da preservação do meio ambiente.


Grupo de trabalho do CDES propõe discussão ampla sobre biocombustíveis

Formado por 30 conselheiros, entre eles empresários, sindicalistas, representantes de movimentos sociais e universidades, o grupo de trabalho ligado à bioenergia propôs nesta quinta-feira (20), na reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES), um aprofundamento das discussões sobre os biocombustíveis.

"O grupo entende que há uma necessidade de discutir melhor as questões que hoje estão postas. Um exemplo seria a criação de um seminário com todos os setores envolvidos", sugeriu Jackson Schneider, presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea).

O empresário também disse que considera fundamental a formação de um banco de dados com todas as contribuições a respeito do tema, para facilitar os debates. E defendeu a necessidade de certificação, para controlar a qualidade na cadeia produtiva dos biocombustíveis.

Segundo Schineider, não tem fundamento a discussão sobre a redução da área plantada para a produção de álcool. "Todos os dados dos órgãos governamentais mostram que não há nenhuma ameaça à segurança ambiental ou ao abastecimento de alimentos por causa da produção dos biocombustíveis", afirmou.

Ele acrescentou que o percentual de áreas utilizadas para a essa produção é pequeno e que "temos condições de expandir, inclusive para exportar".

(Envolverde/Agência Brasil)

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