segunda-feira, 23 de abril de 2007

O pai do biodiesel decola

Pergunte ao professor EXPEDITO PARENTE como nasceu o biodiesel e o pai do combustível alternativo que supreendeu o mundo contará a história do ingazeiro. É mais ou menos assim: “Eu estava passando um fim de semana num sítio em Pacoti, no interior do Ceará, e decidi, depois de uma cachacinha, tomar um banho de cachoeira. Estava lá me refrescando quando fixei o olhar num ingazeiro. Já viu como é o Ingá? Parece uma vagem. Mas naquele momento, o formato do ingá me lembrou átomos de uma molécula de biodiesel, que eu estava tentando formular há tempo. No outro dia, passei no supermercado, comprei óleo de algodão, fui para o laboratório e com a ajuda de um catalisador fiz a transesterificação (reação química entre álcool etílico e oléo vegetal). Nasceu, assim, o biodiesel”. Os ensaios preliminares de combustão foram bons e Expedito resolveu testar o produto na oficina de um amigo. “Era o Bernardo, de 92 anos, alucinado por motores”, conta o professor. Seu Bernardo, naquele final dos anos 70, foi o primeiro mortal a ver um motor rodando com óleo vegetal. Bateu nas costas de Expedito e profetizou: “Esse negócio vai te levar longe, filho”.

Levou. Expedito José de Sá Parente, natural de Fortaleza, formado em engenharia química pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, pós-graduado em tecnologia química na França e na Alemanha e ex-professor da Universidade Federal da capital cearense , é hoje, aos 66 anos, o dono da Tecbio, referência mundial em combustíveis alternativos. Recentemente, ele esteve em Seattle, na sede da Boeing. Foi retribuir uma visita que o executivo Dave Daggett, chefe do departamento de combustíveis alternativos da fabricante norte-americana, fez ao Brasil em dezembro passado. Dagget veio ver de perto uma nova invenção de Expedito: o bioquerosene, feito a partir do babaçu. Voltou maravilhado a Seattle e, em parceria com a Nasa, tratou de fazer os primeiros estudos de viabilidade do combustível. “Tem que funcionar, né. No céu não há acostamento”, afirma Expedito. O professor não revela os termos do acordo com a Nasa e a Boeing. Diz apenas que ambas, em associação com a Tecbio, estão debruçadas sobre o projeto e que, em dois anos, será possível iniciar vôos experimentais com o bioquerosene. Entrar em comercialização é outra história. “Eu e Dave nos falamos semanalmente. Devo revê-lo em breve, em Seattle”.

Mas antes de pousar na terra da Boeing, o professor tomará um avião até o Norte do Brasil. Tem outro projeto grandioso por lá, que ele chama de Amazonização do biodiesel. “Vamos fazer ilhas energéticas, em regiões remotas, isoladas, que precisam do óleo diesel como combustível”, explica. Em certos lugares da Amazônia, conta ele, é comum a prática do escambo. “Os mascates trocam um botijão de 20 litros de óleo diesel por um saco de 60 quilos de feijão. É uma situação cruel”. A Tecbio desenvolveu uma máquina que funciona como uma mini-usina para processar o biodiesel e levará o equipamento para essas regiões. Utilizando plantas nativas da Amazônia, além de côcos e amêndoas, será possível extrair o óleo vegetal e transformá-lo em biodiesel. Mas a Amazonização vai além das ilhas energéticas. O projeto prevê, numa fase posterior, o reflorestamento de grandes áreas que foram devastadas. A Amazônia tem, hoje, 80 milhões de hectares em degradação. É preciso reflorestá-la para que haja matéria-prima em quantidade. “Com uma área de 80 milhões de hectares em condições normais, daria para abastecer a Europa com biodiesel”, garante o dono da Tecbio. Dinheiro, segundo ele, não vai faltar: “com o tratado de Kyoto, surgiram vários fundos de energia limpa com capacidade financeira para projetos ambientais e sociais. Já temos a sinalização de grandes parceiros para a Amazonização, mas não posso revelar seus nomes”.

Em qualquer discurso do professor cearense a questão ambiental é sempre colocada em destaque, à frente até das vantagens econômicas. “O biodiesel é, antes de tudo, um remédio social”, afirma Expedito. “Em 2004, a comissão de energia da ONU fez um balanço e concluiu que, de 1996 até aquele ano, o mundo havia consumido mais petróleo do que de 1900 a 1996. E os danos ambientais foram terríveis”. Além do prejuízo ao meio-ambiente, há a questão da finitude do petróleo, o que abriu espaço para os combustíveis alternativos. O mundo todo foi atrás do biodiesel, Nos EUA, ele é fabricado com soja. Na Alemanha, a maior produtora mundial, com um 1 bilhão de litros ao ano, o combustível vem da colza – conhecida por aqui como Canola. “Mas ninguém tem nossa diversidade de culturas. Temos uma variedade enorme de oleaginosas”, afirma Anna Paula Florentino, gerente comercial da Tecbio. E não só de oleaginosas. Há a possibilidade de se produzir no Brasil 500 mil toneladas de sebo bovino, gordura animal que pode ser utilizada como insumo para o biodiesel. “No ano que vem passaremos a Alemanha. Só a Tec-Bio já produz 600 milhões de litros anuais”, garante o professor. Esse volume da empresa equivale a 75% dos 800 milhões de litros previstos para a primeira fase do programa brasileiro de biodiesel.

Expedito poderia estar rico, se recebesse royalties por sua invenção. “Como o biodiesel passou muito tempo sem caráter comercial, a invenção entrou em domínio público”, explica. O projeto do biodiesel, segundo ele, foi engavetado durante décadas porque o governo estava focado no álcool etílico. Havia um lobby dos usineiros, nos anos 80, e uma crise no mercado internacional do acúcar. “Mas não estou preocupado com isso, não. Só olho para a frente, minha vida não tem retrovisor”. E olhando para frente, ele sonha com uma Amazônia reflorestada, abastecendo o mundo com biodiesel, e aviões voando com bioquerosene. E pensar que tudo começou na cachoeira de Pacoti.

Fonte: Portal do Meio Ambiente

Um comentário:

Anônimo disse...

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